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Desempenho térmico/comparativo

Desempenho térmico de coberturas

INTRODUÇÃO

Poucos edifícios industriais no Brasil não apresentam temperaturas internas elevadas, particularmente nos meses de verão. Climas predominantemente quentes e úmidos e com o sol presente de forma intensa na maior parte do ano, exigem um tratamento cuidadoso por parte dos arquitetos e engenheiros no que se refere à ventilação e à seleção dos materiais de revestimento do edifício.

Embora o Homem possa se adaptar às condições ambientais inadequadas, isto é feito de forma limitada e por períodos reduzidos de tempo. Esta adaptação sempre se dará ao custo da capacidade de trabalho - físico ou intelectual. Assim, a "adaptação" ao calor excessivo irá sempre significar uma perda de produtividade e de concentração. Muitos acidentes de trabalho estão ligados às condições inadequadas de conforto térmico.

Uma forma de se resolver o problema é através do emprego de sistemas de ventilação, naturais ou forçados ou, mais raramente em indústrias, do ar condicionado. Estes sistemas irão remover o calor interno, sendo seu uso fundamental nos casos onde estufas, caldeiras, fornos, motores e materiais aquecidos estejam presentes no ambiente.

Se nem todo edifício industrial possui fontes internas de calor, por outro lado nenhum escapa do aquecimento dos raios solares e é aí que a escolha criteriosa dos materiais a serem empregados na cobertura pode reduzir em muito os problemas de aquecimento interno. Mesmo que um sistema de condicionamento de ar venha a ser necessário, seu porte, custo de instalação, custo de manutenção e consumo de energia serão bem menores.

Pretendemos portanto fornecer algumas informações que julgamos úteis aos profissionais envolvidos com a especificação de materiais de revestimento de edifícios industriais. Para isto, faremos uma comparação do desempenho térmico dos principais materiais empregados nas coberturas de indústrias, evitando aprofundar os aspectos teóricos do assunto, de forma a não termos um texto excessivamente enfadonho.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

As análises feitas neste estudo comparativo baseiam-se em dados obtidos em catálogos de fabricantes ou em literatura especializada. São, portanto, valores médios, que certamente irão apresentar algumas variações se outras fontes de informação forem consultadas, já que a qualidade dos materiais e suas características podem variar, assim como a forma pela qual estas características foram levantadas.

A comparação considera exclusivamente o caso de coberturas, por serem normalmente estas superfícies as maiores e as mais expostas ao sol. Para o caso de fachadas, alguns dos valores apresentados pelos materiais sofrerão alterações, no entanto, permanecem em grande parte válidas as conclusões finais.

Por fim, as unidades aqui empregadas são as do Sistema Internacional, exceto onde o uso de outra unidade favorecer um melhor entendimento. O fluxo de calor será expresso em Watts, lembrando que 1 Watt = 1 Joule/segundo = 0,86 quilocalorias/hora.

Condutibilidade Térmica

Provavelmente o dado mais familiar a respeito do comportamento térmico de um material seja a sua condutibilidade térmica. O coeficiente de condutibilidade térmica k fornece o fluxo de calor que passa em 1 m2 de superfície do material, quando este possui uma espessura de 1 m e é submetido a uma diferença de temperatura de 1 grau entre as suas faces.

Assim, se uma hipotética parede de concreto tivesse 1 metro de espessura e a sua face externa estivesse a 20 oC e a sua face interna a 21 oC, o fluxo de calor que atravessaria cada m2 da sua superfície seria igual a 1,75 W (ou 1,75 J/s). Portanto o k do concreto é 1,75 W.m/m2/oC ou mais comumente 1,75 W/m/oC , fazendo-se o ajuste das unidades métricas. Diferentes materiais possuem diferentes coeficientes de condutibilidade térmica. A Tabela 1 apresenta os valores médios para os materiais mais comumente empregados em coberturas de edifícios industriais:

Tabela 1 – Coeficientes de Condutibilidade Térmica

MATERIAL

CONDUTIBILIDADE TÉRMICA k (W/m/ºC)

Cimento Amianto

0,65

Concreto

1,75

Aço Zincado

52,00

Alumínio

240,00

Espuma Rígida de Poliuretana

0,025

Lã de Rocha/Vidro

0,045


Como é possível perceber pelos dados anteriores, os materiais metálicos como o aço zincado e o alumínio, são excelentes condutores de calor já que possuem valores de k elevados. Porém, comparar alternativas unicamente em função dos coeficientes de condutibilidade térmica é uma simplificação que certamente induzirá a erros de especificação. Como veremos adiante, outros fatores devem ser considerados e com resultados surpreendentes. O segundo bloco de materiais corresponde aos isolantes térmicos, com baixos coeficientes de condutibilidade. Os isolantes oferecem uma grande resistência à passagem do calor, sendo usados em coberturas, equipamentos industriais ou nas geladeiras domésticas por exemplo. Condutância Térmica Nenhum dos materiais da Tabela 1 é empregado com 1 metro de espessura, portanto a condutibilidade k deve ser dividida pela espessura com a qual o material for utilizado. O valor resultante será a condutância térmica parcial Kp, expressa em W/m2/oC. A Tabela 2 fornece as condutâncias parciais Kp para as espessuras mais usuais dos materiais de cobertura da Tabela 1, inclusive com isolamento térmico para as telhas metálicas.

Tabela 2 – Condutância Térmica Parcial

COBERTURA

ESPESSURAS (mm)

CONDUTÂNCIA PARCIAL Kp (W/m2/ºC)

Cimento Amianto

8,00

81,00

Concreto Pré-moldado

50,00

35,00

Alumínio

0,80

300.000,00

Aço Zincado

0,50

104.000,00

Alumínio + Espuma de Poliuretana

0,80 + 30

0,83

Aço Zincado + Esp. de Poliuretana

0,50 + 30

0,83

Aço Zincado + Esp. de Poliuretana

0,50 + 50

0,50

Aço Zincado + Lã de Rocha/Vidro

0,50 + 40

0,94

Aço Zincado + Lã de Rocha/Vidro

0,50 + 50

0,78


Da Tabela 2 é possível verificar que as telhas metálicas são, mais uma vez, as maiores transmissoras de calor, o que já era de se esperar. Elas possuem os maiores valores de condutibilidade térmica e são fabricadas em pequenas espessuras (inferiores a um milímetro), fato possível graças à grande resistência mecânica dos metais.

A importância do isolamento fica demonstrada pela queda apreciável das condutâncias parciais, quando comparamos as telhas simples com as telhas isoladas. Estas são conhecidas como "telhas sanduíche", pois compreendem um isolante térmico entre duas telhas metálicas. No caso das telhas sanduíche com mantas ou painéis de lã de vidro ou lã de rocha, deve ser considerado também o espaço de ar que fica confinado entre as ondas das telhas e o isolante já que este permanece estendido, ou seja, não acompanha as ondulações das telhas. Um espaçador é utilizado para garantir que haja uma distância entre as telhas, igual ou ligeiramente menor que a espessura do isolamento. A comparação entre os materiais ainda não estará completa se não considerarmos as influências do ambiente e as características superficiais dos materiais em análise.

Condutância Térmica Global
Ao levarmos estes materiais para a cobertura, eles estarão sujeitos a mais duas modalidades de trocas térmicas: trocas térmicas por convecção e trocas térmicas por radiação. As trocas por convecção ocorrem sempre que uma superfície esteja em contato com um fluido, no caso em questão o ar ambiente. A cobertura poderá ganhar ou perder calor pelo contato com o ar, se este estiver a uma temperatura maior ou menor do que a da telha. Da mesma forma, os materiais emitem radiação térmica para o ambiente ou dele recebem calor também por radiação. Os mecanismos térmicos aqui envolvidos são bastante complexos e podem variar com a posição da superfície, sua rugosidade, com a velocidade e temperatura do ar, sua viscosidade, com a temperatura da superfície e a do ambiente e com a capacidade que cada superfície têm para irradiar calor. Considerando todas estas variáveis, chega-se finalmente à Condutância Térmica Global K (em W/m2/ oC). A condutância global é o valor que deve ser considerado para os cálculos de desempenho térmico de uma cobertura. No valor de K já estão computadas, portanto, a condutibilidade térmica, a espessura, as trocas por radiação e por convecção, dentro das situações encontradas normalmente pelos materiais de cobertura.

Tabela 3 – Condutância Térmica Global

COBERTURA

ESP. (mm)

CONDUT. GLOBAL (W/m2/ oC)

Cimento Amianto

8,00

5,59

Concreto Pré-moldado

50,00

5,28

Alumínio

0,70

3,96

Aço Zincado

0,50

3,96

Aço Pré-pintado branco

0,50

5,87

Alumínio + Espuma de Poliuretana

0,70+30

0,69

Aço Zincado + Esp. de Poliuretana

0,50+30

0,69

Aço Zincado + Esp. de Poliuretana

0,50+50

0,44

Aço Zincado + Lã de Rocha/Vidro

0,50+40

0,69

Aço Pré-pintado + Esp. Poliuretana

0,50+30

0,73

Aço Pré-pintado + Esp. Poliuretana

0,50+50

0,46

Aço Pré-pintado + Lã de Rocha/Vidro

0,50+40

0,81

Aço Pré-pintado + Lã de Rocha/Vidro

0,50+50

0,69


A importância de se considerar o coeficiente global fica demonstrada pela Tabela 3. A influência da convecção e da radiação, sempre presentes em qualquer superfície exposta ao ambiente, faz com que haja um achatamento nos valores das condutâncias parciais anteriormente calculadas na Tabela 2. As coberturas metálicas simples (sem isolamento), apresentam uma capacidade de transmitir calor similar a de materiais menos condutores e bem mais espessos. À Tabela 3 foram acrescentados os valores de K para telhas de aço zincado e pré-pintado na cor branca, pois a pintura altera as características superficiais do material e consequentemente o comportamento da cobertura quanto à parcela das trocas térmicas por radiação.

RADIAÇÃO SOLAR


Ao meio-dia no verão, a quantidade de calor incidente sobre uma cobertura horizontal pode chegar a 1200 W/m2, energia equivalente a 20 lâmpadas de 60 W acesas em cada metro quadrado de cobertura. Esta energia é em maior ou menor grau absorvida pela telha, em função do seu coeficiente de absorção à radiação solar. A absorção é uma característica superficial do material e varia com a sua cor e brilho. Quanto mais escura for a superfície, mais radiação solar será absorvida e transmitida para o interior do edifício. Cores claras na cobertura são portanto recomendáveis. Os coeficientes de absorção à radiação solar apresentados na Tabela 4 são indicativos e representam valores médios da absorção de cada material:

Tabela 4 – Coeficientes de Absorção à Radiação Solar

MATERIAL

COEF. DE ABSORÇÃO À RADIAÇÃO SOLAR

Cimento Amianto

0,80

Concreto Pré-moldado

0,75

Alumínio

0,50

Aço Zincado

0,60

Aço Pré-pintado na cor branca

0,25


Uma cobertura com cimento amianto por exemplo, absorverá 80% da radiação solar incidente sobre ela ou 960 W/m2 em um dia de céu claro, no verão, ao meio-dia; uma telha pré-pintada na cor branca absorverá 25% ou 300 W/m2. O calor absorvido será em parte transmitido para o interior do edifício através da condutância K, desta forma é interessante que tanto o coeficiente de absorção à radiação solar quanto à condutância global K, sejam os menores possíveis.

FLUXO DE CALOR, UM EXEMPLO

Para se analisar o comportamento dos materiais, vamos admitir uma situação simples, teórica, que permita uma comparação de fácil entendimento: Um edifício no qual fossem empregados na cobertura os materiais até aqui mencionados; As fachadas seriam compostas de material tão isolante que através delas não haveria trocas térmicas (ganhos ou perdas de calor). O propósito é o de analisar apenas o desempenho das diferentes coberturas; A radiação solar incidente fosse de 1.200 W/m2; A temperatura do ar externo seja de 25 oC e que a interna seja de 20 oC, mantida uniforme pelo uso de um aparelho de ar condicionado. Nestas circunstâncias o fluxo de calor que atravessaria cada metro quadrado de cobertura é dado pela Tabela 5. O hipotético aparelho de ar condicionado, teria a sua capacidade, consumo de energia e custo definidos por esses fluxos de calor. Quanto maior a passagem de calor pela cobertura maior será o sistema de condicionamento de ar ou na ausência deste, o aumento da temperatura interna e o desconforto dos ocupantes.

Tabela 5 – Fluxos de Calor

COBERTURA

ESP. (mm)

FLUXO (W/m2)

1. Cimento Amianto

8,00

256

2. Concreto Pré-moldado

50,00

182

3.Alumínio

0,70

140

4. Aço Zincado

0,50

176

5. Aço Pré-pintado branco

0,50

113

6. Alumínio + Esp. de Poliuretana

0,70+30

27

7. Aço Zincado + Esp. de Poliuretana

0,50+30

27

8. Aço Zincado + Esp. de Poliuretana

0,50+50

14

9.Aço Zincado + Lã de Rocha/Vidro

0,50+40

27

10. Aço Pré-pintado + Esp. Poliuretana

0,50+30

16

11. Aço Pré-pintado + Esp. Poliuretana

0,50+50

14

12. Aço Pré-pintado + Lã de Rocha/Vidro

0,50+40

16

13. Aço Pré-pintado + Lã de Rocha/Vidro

0,50+50

13

CONCLUSÕES

O coeficiente de condutibilidade térmica k, embora importante em uma análise de conforto térmico, proporciona uma visão apenas parcial do problema. A capacidade de absorver calor solar e os fatores referentes às trocas térmicas por radiação e convecção devem ser considerados.

Em uns poucos casos o isolamento térmico não é recomendado ou o seu uso é ineficiente:

Ambientes com grande geração de calor interno, não devem, a principio, receber coberturas isoladas. Nestes casos o calor interno pode ser superior ao aquecimento da cobertura por radiação solar.
Quando houver material translúcido na cobertura, tais como telhas de fiberglass ou policarbonato, deve-se fazer um cálculo dos ganhos de calor com e sem isolamento térmico na cobertura. Dependendo da área de material translúcido empregado, a passagem de calor através desta pode anular os benefícios do isolamento. Recomenda-se neste caso a redução da iluminação zenital ou o deslocamento de parte da sua área para as fachadas.

A opinião de um técnico especializado pode ser útil e certamente irá resultar em um projeto final mais adequado aos usuários e mais econômico para o proprietário. Ele poderá inclusive avaliar logo no início se a melhor solução não passa por sistemas de ventilação naturais ou forçados.

Departamento Técnico

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